fui ver lost in translation...
e quando saí do cinema não podia concordar mais com a Marta... gostei de tudo no filme... fiquei mesmo contente... gostei da fotografia, das cores, dos personagens (todos), da comédia e da intensidade dramática de algumas cenas, da música, do ritmo (não achei parado - acho isso de certa forma uma falácia ao analisar este tipo de filme), da história (bingo), e até mesmo da cena no bar de streep (porque não um bar de streep, ainda que possa ser um cliché?)... de repente... passado o primeiro impacto... atingiu-me a ideia de que a razão porque gostei tanto do filme era porque era a mesma história contada no meu favorito In the Mood for Love de Wong Kar Wai.
A ver se explico em 15 pontos...
1 - Ambos os filmes estão localizados num ambiente oriental, colorido e exótico.
2 - A batida melancólica do contrabaixo do tema do Michael Galasso substituída pela batida electrónica mas igualmente lenta dos Air.
3 - A cena em que Bill e a Scarlett cruzam olhares no elevador do hotel é em tudo idêntica à cena em que o Toni e a Maggie se cruzam nas escadas do prédio onde vão morar, e serve para introduzir o início da aproximação em ambos os casos.
4 - Em ambos os filmes os dois personagens são casados e de certa forma abandonados à solidão pelos respectivos parceiros.
5 - O marido de Maggie que viaja para o japão é substituído pelo marido da Scarlett que é fotógrafo e também viaja amiúde deixando-a sozinha (no japão!!).
6 - A mulher de Toni que vemos numa cena a falar com ele de um telefone no lobby de um hotel é substituída pela mulher do Bill que fala com ele por um telemóvel, mas também ela "desligada"...
7 - Em ambos os filmes a aproximação de ambos é gradual mas irrevogável...
8 - O ambiente do restaurante de noodles onde Toni e Maggie sempre se cruzam é substituído pelo bar do hotel onde Bill e Scarlett trocam também olhares.
9 - O gesto gracioso e estiloso do acender do cigarro do Toni (comecei a fumar depois de ver este filme... entretanto desisti...) é substituído pelo manusear estilo "Logel Moole" do whisky e charuto do Bill... ambos trabalham em media e contam histórias à sua maneira... um é jornalista e escritor de contos de artes marciais, e o outro é actor... ambos partilham o sentimento de desânimo pelas respectivas carreiras...
10 - O andar e olhar lento de Maggie pelas ruas de Hong Kong à chuva é substituído pelo mesmo ritual de Scarlett por Tóquio e Kyoto... ambas partilham o sentimento de desamparo pelos respectivos...
11 - Os vizinhos velhos e ruidosos de Toni e Maggie no prédio onde moram são subsituídos pelos amigos jovens e ruidosos de Scarlett... e o jogo de majhong com chá que se prolonga até madrugada é substituído pelo karaoke e por outro tipo de erva também pela madrugada a dentro...
12 - A cena do restaurante em que Toni e Maggie conversam sobre a traição dos respectivos é substituída pela cena do restaurante de sushi em que Scarlett e Bill conversam da traição de Bill com a cantora do bar... o fumo do cigarro do Toni substituido pelo fumo da panela no meio da mesa...
13 - A cena em que Toni e Maggie ficam presos no quarto de Toni por causa do jogo de Majhong do lado de fora é substituída pela cena em que Bill e Scarlett não conseguem dormir e passam a noite juntos na mesma cama... sem que haja sexo envolvido...
14 - O ponto fulcral da comparação!! - Ambos os casais por vias das circunstâncias desenvolvem um afecto que vai além de uma simples amizade mas que teme em cair no vulgarismo de uma óbvia relação sexual que podia estragar a intensidade dos seus sentimentos se depois não fossem capazes de lidar com ela... bingo!!
15 - a cena final... é Bill que parte assim como Toni partiu para Singapura... os desencontros... o telefonema que já não a encontra... enfim encontrei tantos pontos em comum que acho que o único óscar que este filme não merecia era o de melhor argumento original!!!
Em todo o caso, estava formidável... acho o trabalho do Wong Kar Wai mais original (os vestidos fabulosos de Maggie...) e trabalhado... este director demorou um ano a filmar com os personagens... sem guião... até amadurecer uma história que ele nem sabia bem qual era (nem ele nem ninguém, parece)... em menos tempo a Coppola também obtem um excelente desempenho dos seus actores... e um toque feminino que fica a matar... a celulite da Scarlett é algo que só uma mulher se lembraria de mostrar, eu acho, como um código secreto entre as mulheres... já a Shannon Maguire fez o mesmo com a Bridget Jones - não somos todas top-models e pronto!! :-), e o facto de que a Sofia prescindiu do acto sexual para consumar o amor, também me parece um toque feminino... (o mesmo acto que Wong Kar Wai deixa implícito no seu filme... e a mulher do Kar Wai é icónica, esbelta, perfeita... abordagem mais masculina)
O tema em ambos é excelente... o amor que nasce da solidão... ou a disponibilidade para amar e ser amado pela primeira (ou a mais providencial) pessoa que se cruze... e a confusão em distinguir se se trata de um amor legítimo ou apenas fruto da tal solidão e que não aconteceria em outras circunstâncias... seriam eles feitos um para o outro caso não tivessem sido abandonados??
Nota de rodapé: o nome completo dos actores mencionados - Toni Leung, Maggie Cheung, Bill Murray e Scarlett Johansson...