sexta-feira, março 12

da circunstância

Não vi esse outro, mas pelo que dizes, Sofia apenas mudou cenário e personagens. Fico com curiosidade de saber, então, quais são as diferenças.

Talvez umas das diferenças com esse outro que não vi, seja algo que confere ao filme uma das suas componentes principais, a ideia de futilidade das nossas vidas... urbanas. O cenário urbano-depressivo onde decorre a acção.

Quanto à consumação física do amor, não me parece toque feminino. Parece-me a peça chave e fundamental da história. Sem ela toda a intensidade do argumente se esboroaria. Eu disse para meus botões, durante a projecção, se houver sexo, saio. E mesmo o beijo final não devia ter sido onde foi. Devia ter sido apenas um olhar e um dar-de-mãos. Forte.

Gostei muito de tudo no filme. Excepto o argumento, que gostei. Falta-lhe algo para poder dizer (e sentir) que gostei muito. Está num limbo onde um descuido o pode destruir. Assim como o encontro no bar de strip, o primeiro-e-último beijo é uma cena que se espera que (não) aconteça. A primeira, é esperada pelo ambiente urbano onde decorre a acção. A segunda, esperada porque é em torno da solidão que circula a peça. E o sexo é um dos “soma”, uma pílula anti-solidão a que muitas vezes se recorre. Que seja num bar de strip, sim, tem a ver. Mas mostra-me uma mão da dançarina, um pé, uma orelha, um olhar. Aquele traseiro… apenas tenta compensar a (não) falta de sexo do filme. É mais fácil criar uma cena com nádegas ou mamas do que com um pé ou uma orelha. E no entanto, ambos estes são muito mais sensuais que um rabo em ângulo agudo.

E a resposta à grande pergunta do filme, como referida pelo Bruno a concluir o seu texto, é que o amor é fruto da circunstância. Que o amor resulta do choque de dois movimentos, não do encontro entre dois seres. A Marta já o havia referido (29 Fev): “se näo fosse essa realidade täo atordoante, estas duas almas nunca se teriam encontrado". Ou seja, apaixonamo-nos pelas circunstâncias comuns, mais do que pelos gostos iguais.

ps: quando classifiquei o filme de "parado, expectante", referia-me a uma virtude, não um defeito.

ps2: gostei desta, com a qual concordo totalmente:

Bob: It gets a whole lot more complicated when you have kids.
Charlotte: It's scary.
B: The most terrifying day of your life is the day the first one is born.
C: Nobody ever tells you that.
B: Your life, as you know it... is gone. Never to return. But they learn how to walk, and they learn how to talk... and you want to be with them. And they turn out to be the most delightful people you will ever meet in your life.