domingo, março 7

definição de liberdade

O nosso quotidiano é pleno em referências a este livro. Muitos dizem que este é um dos seus livros de referência. Agora também posso opinar. E melhor perceber as referências, quando lhe forem feitas.

Há muitos anos comecei a ler este livro mas fiquei pelo seu primeiro terço. Desta vez fui ate ao fim. Não sem algum esforço; é um estilo de escrita que não seduz. E a escolha das palavras, a forma de as juntar, a pontuação ou ausência dela... podem causar tanto prazer quanto o de um brilhante argumento. Forma versus conteúdo. A forma ganha. E o nosso admirável mundo é disso prova, para o bem, mas também para o mal. E quando a forma nasce da excelência de um conteúdo, é a obra-prima. Há excepções, sempre. Este Admirável Mundo Novo é uma, ou talvez não, se andarmos para trás setenta anos. Escrito na década vinte do século passado, é admirável o seu conteúdo, que se usa de uma forma de expressão para se revelar, a escrita. Se olharmos outras obras da mesma época, talvez a sua escrita seja moderna e audaz. Também a forma adoptada potência o conteúdo, ajuda a transmitir a sensação de frieza, de calculismo, de rotina, de cinzento. E por aí, condiz. Mais, tente-se imaginar a mesma história, contada de forma diferente... alguém consegue? Mas não retiro o que disse, é um livro que não se lê de olhos fechados.

Um dos mais interessantes condicionamentos imaginados é o condicionamento para a morte. As crianças são levadas para os hospitais onde os velhos-apenas-por-dentro esperam a sua hora. E aí brincam, jogam, comem chocolates e são levados a considerar a morte como algo natural e doce. E as enfermeiras estão mais preocupadas com o correcto condicionamento das crianças do que com a morte dos pacientes, condicionadas que também estão.

Imaginando-se num futuro não tão longínquo, é um livro de verdades, umas mais duras que outras, mas verdades, em 1930, 2004 ou 2530. E (como a Ritinha já o fez saber, aqui à lareira) é no diálogo final entre Mustafá Mond, o Administrador, e John, o Selvagem, que elas se expõem.


"À medida que a liberdade económica e política diminui, a liberdade sexual tem tendência para aumentar, como compensação." (prefácio, p17)

“O objectivo da vida não é a manutenção do bem-estar, mas sim um certo reforço, um certo refinamento da consciência, algum aumento do saber... - coisa que - pensou o Administrador - pode muito bem ser verdade mas é inadmissível nas circunstâncias actuais”. (p185) – já transcrito a 29 de Fevereiro

"Uma das principais funções de um amigo consiste em suportar (sob uma forma mais suave e simbólica) os castigos que desejaríamos, mas não podemos, infligir aos nossos amigos." – é o conceito amigo-vitima. (p187)

“A felicidade real parece sempre bastante sórdida quando comparada com as largas compensações que se encontram na miséria. E é evidente que a estabilidade, como espectáculo, não chega aos calcanhares da instabilidade. E o facto de se estar satisfeito não tem nada do encanto mágico de uma boa luta contra a desgraça, nada do pitoresco de um combate contra a tentação ou de uma derrota fatal sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa.” (p231)

"Não fomos nós que nos fizemos, não podemos ter a jurisdição suprema sobre nós mesmos. Não somos senhores de nós. Pertencemos a Deus. Não é para nós uma felicidade encararmos as coisas desta maneira? Será, por qualquer razão, uma felicidade, um conforto, considerarmos que pertencemos a nós mesmos? Aqueles que são jovens (...) podem acreditá-lo. (...) Mas à medida que o tempo se escoa apercebem-se (...) de que a independência não foi feita para o homem, que ela é um estado antinatural, que ela pode satisfazer por um momento, mas que não nos leva em segurança até ao fim". (p243)

"Diz-se que se os homens se tornaram religiosos ou devotos com o avançar dos anos é porque têm medo da morte e do que a deve seguir na outra vida."

"um tal Bradley. Ele definia a filosofia como a arte de encontrar uma má razão para aquilo em que se acredita instintivamente. Como se se acreditasse, seja no que for, instintivamente! Acredita-se nas coisas porque se foi condicionado para acreditar nelas. (...) Crê-se em Deus porque se foi condicionado para crer em Deus."

“Os deuses são justos. Sem dúvida. Mas o seu código de leis é ditado, em última instância, pelas pessoas que organizam a sociedade. A Providência recebe a palavra de ordem dos homens.”

“Mas Deus é a razão de ser de tudo quanto é nobre, belo, heróico. Se tivesse um Deus... - Meu caro amigo - disse Mustafá Mond- a civilização não tem a menor necessidade de nobreza ou de heroísmo. Essas coisas são sintoma de incapacidade política (...) Onde houver guerras, onde houver juramentos de fidelidade múltiplos e divididos, onde houver tentaçãoes às quais é necessário resistir, objectos de amor pelos quais é preciso lutar ou que é preciso defender, aí, manifestamente, a nobreza e o heroísmo têm um sentido. Mas hoje já não há guerra. Toma-se o maior cuidado para evitar amar exageradamente seja quem for". (já transcrito pela Rita a 8 de Fevereiro)

“Pode se trazer connosco, num frasco, pelo menos metade da própria moralidade. O cristianismo sem lágrimas, eis o que é o soma. – Mas as lágrimas são necessárias. Não se lembra do que disse Othello? «Se depois de qualquer tempestade nascem tais calmarias, então que soprem os ventos até acordarem a morte!»”

“Voçes não sofrem nem enfrentam. Suprimem apenas os golpes e as flechas. É demasiado fácil. (...) Nada se compra bastante caro, aqui.” (p249)

“Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o autêntico perigo, quero a liberdade, quero a bondade, quero o pecado. – Em suma – disse Mustafá Mond -, você reclama o direito de ser infeliz.” (p250)


Fechado o livro, fica a pergunta: Seremos nós, hoje, dois mil e quatro anos depois do nascimento de Cristo, livres?