E para não ter pesadelos, deixem-me falar sobre algo mais colorido.
O pedaço-de-madeira-de-azinho que a Águeda atirou prá lareira no Domingo, sobre música, fez–me lembrar um CD maravilhoso, que um desconhecido ofereceu à minha imprescindível mãe, certamente acompanhado de um ramo de flores.
É que as gravações que hoje se fazem dos clássicos do jazz, os “standards”, são desprovidas de um pormenor inicial que lhes vem da origem e que é por demais delicioso. Falo das introduções. Vários desses “standards” foram criados num contexto mais alargado do que a música em si, como seja o de uma opereta ou um musical. Do “West Side Story” de Bernstein saiu o tema “Somewhere”. O “Porgy and Bess” dos irmãos Gershwin, deu à luz o “Summertime”. Assim, na pauta original de muitos clássicos do jazz, existe uma primeira parte com uma conversa que divaga sobre o tema da canção e uma música que, se harmonicamente coerente, é melodicamente distinto, e muitas vezes a roçar o falado. Tais introduções são possíveis de encontrar em gravações mais antigas, como as da Ella Fiztgerald.
E assim, ele ou ela, em vez de saltarem directamente para o tema, contam-nos umas coisas, como que ajeitando-nos o ouvido para que possamos desfrutar daquela criação em pleno.
No tema transcrito pela Águeda, “Easy to Love”, a música propriamente dita, só começa no “You'd be so easy to love”... O que vem antes é evocativamente cantado, transportando-nos para aquele lugar, naquela tarde de Outono, no banco do jardim, ao pôr do Sol. De facto, esse tema do Cole Porter é um daqueles que faz arrepiar a coluna vertebral, pela música e pela letra. (Lá terás que nos oferecer um pedaço do teu dom, nesse nosso encontro-jantar.)
O CD que tenho à minha frente, de 1990, tem dois aspectos que o tornam singular. Um. Não abdica nunca dessas introduções, quando existem. Dois. Os músicos que o fizeram são três, um pianista, um saxofonista e, vejam só, um cantor lírico, neste caso, tenor.
Chama-se “Songs”. Tem composições de Gershwin e Porter. Á primeira audição é chocante, à segunda intriga, a partir daí é uma peça de referência.
Somebody Loves Me
When this world began
it was Heaven’s plan,
there should be a girl
for ev’ry single man;
To my great regret
someone has upset,
heaven’s pretty program
for we’ve never met;
I’m clutching at straws,
just because
I may meet her yet. (fim da intro)
Somebody loves me
I wonder who
she can be;
somebody loves me
I wish I knew;
Who can she be worries me,
for ev’ry girl who passes me
I shout, Hey! may be,
You were meant to be my loving baby.
Somebody loves me
I wonder who,
Maybe it’s you.
música: Cole Porter
letra: B.G. de Sylvia e Ballard MacDonald
Bons sonhos!