Porque lemos? Porque é difícil tirar os olhos de um amontoado de palavras? De onde vem a loucura da leitura?
Vive se outra vida, talvez. Cresce o espírito ou talvez apenas o distrai. Mera prática cuscovilhista, desculpada pela ilusão da ficção. Compensação por não conseguirmos estar em todo lado, conhecer toda a gente, beber todos os cafés. A procura da omnipresença, a luta pelo poder. A sabedoria confere ao seu possuidor a sensação de posse. E confere poder, como àquele que tem o dom de ver por entre a escuridão.
Somos melhores porque lemos? Seriamos piores por nunca termos pegado num livro, que não fosse o da escola? Seriamos diferentes. Porque é a cultura uma virtude? É a cultura literária uma virtude?
Pensando noutra arte, a música, por exemplo. Pondo de parte a componente de prazer momentâneo, qual o interesse em ouvir música? Desenvolve capacidades sensoriais e cognitivas. Cognição é o acto de adquirir conhecimento pelo que estariamos a fazer algo apenas por esse mesmo algo. (Contando com as variações, existem pelo menos 1260 palavras começadas por ‘con’, começadas por ‘com’ existem 450, com o prefixo ‘vis’ apenas existem 82, enquanto que com ‘cog’ no início, apenas aparecem 27, o que faz de cognitivo, cógnito, cognato, cogitativo, cogitabundo, palavras difíceis de encontrar). Sensor não vêm no dicionário. (Com 129 palavras começadas por ‘sen’, bem que podia vir). Mas vem senal, que é um diamante em bruto e senense, que é um natural de Seia. E vem censor que é coisa de outros tempos, espero. E vem sensório, que alguns filósofos consideram ser, no cérebro, o centro das sensações e a sede da alma. Ouvir uma música, ler um livro provoca sensações, faz sentir, de preferência, sensações boas, prazenteiras. E o prazer é o que se leva da vida. Ao rejeitar o prazer, rejeita-se a vida em si. Tudo o que fazemos, revela-se em prazer, mesmo que indirectamente. Todos os dias da semana me levanto, bem cedo pela manhã, ainda o Sol boceja, ingiro uns restos sem calma, visto umas roupas apressadamente, inalo gases de escape, entro num edifício, abro a porta de um gabinete, sento-me numa cadeira frente a um teclado e trabalho. Trabalho para poder sobreviver, sobrevivo para poder ter prazer. Ou seja, trabalho pelo prazer. (E se também trabalhar por prazer, oh, que prazer). Mesmo a maior das chatices, é feita pelo prazer. E quanto mais rapidamente for realizada, maior o prazer, pois menor o desconto.
Tudo se revela no prazer. Prazer de ler, prazer de saber, de conhecer, prazer de poder conversar. A cultura permite fruir da vida com maior intensidade.
É que ler ajuda a descobrir o porquê de ler. Quanto mais se lê mais se sabe porque se lê, porque se vive, porque se ama.
ps: Ir ao dicionário pode ser uma experiência traumatizante. Desde não encontrar a palavra procurada, como por exemplo ‘eczema’ (pois só existem três palavras começadas por 'ecz') passando pela distracção com outras que pouco ou nada têm a dizer ao que indagamos, como a área da superfície terrestre habitada permanentemente pelo homem, a ‘ecúmena’, até ao tropeçar numa que não se quer, nem dada, como seja (alheiem-se os susceptíveis) ‘endorreico’ ou pior ainda, ‘rectotomia’, que está ali escarrapachada no canto superior direito, bem à vista dos olhos desprevenidos. Claro que escrita num moderno computador, aparece-lhe logo um recortado traço vermelho por baixo dizendo, tirai daqui essa palavra ó filho do demónio. Há tanta indignação neste mundo e não há quem ponha regras na elaboração de dicionários, como passar para o meio da página seguinte uma palavra que possa causar danos na mente imaculada de uma criança ou de um adulto mais desatento.
ps2: Pensais (com razão), mas não tem este moço nada mais profícuo para fazer? Perdoai-me, mas é que estou remetido ao silêncio da casa, por motivos febris, e como a febre ainda não passa pelo teclado, só os vírus, defendo-me assim da invasão bacterial. Faltai-vos tempo para escrever? Tomai pois uma estirpe deste fungo que habita a minha faringe, e uma vez por mês, duas se fores senhoras, tereis o desejado período para dedicar às artes criativas. Mas, cuidado, na ânsia da fórmula descoberta, não tomais demasiada poção, pois caireis não efémero, enfermo e enfedelhado, na cama, de molho, em inúteis coagitações (coagitar, constranger a praticar - ou a não praticar - um acto, neste caso o de escrever).
ps3: Já agora, sabeis o que é a clemência? É a virtude que modera o rigor da justiça.