Li, há dias, um livro de Kundera (A Vida Não é Aqui) que há muito jazia numa qualquer prateleira de uma estante, talvez pela pesada companhia dos seus vizinhos laterais (Eça e Balzac). Estava para lá perdido com um daqueles sorrisos amarelos que não saltam à vista. Adiante, resolvi pegar no livro e lê-lo e devo concluir que ele hoje, na sua prateleira, já não sorri mas dá gargalhadas sonoras. Trata-se da história de um poeta desajeitadamente romântico, de sua graça Jaromil, desde o seu nascimento até à sua morte e um pouco mais além, e da sua mãe, figura absolutamente omnipresente na vida do pobre rapaz. Esse Jaromil é um pseudo-poeta, com personalidade trágico-dramática, que troca as mãos pelos pés ao abraçar o comunismo de forma quase inconsciente, é sentimentalmente trapalhão e as suas únicas ambições são brilhar como poeta, sofrer como poeta, amar como poeta, ser famoso como poeta. Se há coisa que ele não tem é inteligência emocional.
Neste livro, com em tantos outros de Kundera, há uma abordagem aos pormenores físicos femininos de um modo totalmente alternativo, quase esmagador:
- "Nunca ela se abandonara de modo parecido a um outro corpo, e nunca um outro corpo de modo parecido se lhe abandonara. O amante podia gozar o seu ventre, mas não morara nele, podia tocar-lhe o seio, mas nunca nele bebera. Ah, o aleitamento! Ela observava apaixonadamente os movimentos de peixe da boca desdentada e imaginava que o filho bebia, ao mesmo tempo que o leite dela, os seus pensamentos, as sua fantasias e as suas cismas.";
- "... os olhos fizeram-se-lhe tão grandes que Xavier não via mais nada além deles, como se o resto do rosto e do corpo se limitasse a ser um acompanhamento dos olhos, o seu estojo; ele não sabia sequer como eram os diferentes traços do rosto da mulher e as proporções do seu corpo, tudo isso lhe ficava na margem da retina; a impressão que tinha daquela mulher não passava na realidade da impressão sobre ele produzida pelos imensos olhos dela cuja luz castanha inundava todo o restante corpo."
Fala-nos do amor materno obsessivo para com o(s) rapaz(es):
- "... era o amor que lhe tinha a mamã. Esse amor deixava as suas marcas em tudo: estava inscrito na camisa dele, no seu corte de cabelo, nas palavras de que jaromil se servia, na pasta onde guardava os cadernos escolares e nos livros que lia em casa para se distrair. Tudo isto era especialmente escolhido e arranjado para ele;
- "O amor materno imprime na fronte dos rapazes uma marca que repele a simpatia dos colegas.";
Há uma descrição soberba de velhice física feminina (a meu ver):
- "Eram os únicos que estavam a dançar na sala do bar e Xavier via que a mulher tinha o pescoço magnificamente envelhecido, a pele à volta dos olhos magnificamente enrugada e que duas rugas magnificamente profundas se lhe cavavam à volta da boca, e sentia-se feliz por ter nos braços tantos anos de vida, feliz por o aluno de liceu que era poder ter nos braços toda uma vida já quase terminada";
E deixo-vos (por agora) com uma afirmação retirada do livro:
- "E disse para consigo que não podemos ser totalmente nós próprios senão a partir do momento em que estamos totalmente no meio dos outros."
Beijos para todos