terça-feira, abril 20

barbas e chatos ou o sentido da vida

(não tens andado de barba, não?)

Eu confesso: é que vi 'Abril' depois de ter visto 'in the mood for love'... tá tudo explicado, né?!
como tal não estava preparado para um documentário sobre como fazer um filme quando não se sabe sobre o que fazer um filme. Aliás, há já algum tempo que também eu me debruço sobre um tema equivalente, sobre o quê escrever um livro quando não se sabe sobre o quê escrever um livro. Mas o Moretti não me respondeu a essa questão. Ou melhor, respondeu, quando não sabes o que dizer, diz para dentro (da tua barba).

Agora menos a brincar. A sensação que me deu é que ele não tinha nada para (me) dizer. Ou seja, aquilo
que ele lá diz não me desperta interesse, prazer ou sensação, apenas alguma irritação e aborrecimento (o que já é alguma coisa). Se pensar nos pedaços de filme que gostei, vejo que têm a ver com os meus interesses actuais, com as cenas com o filho bébé. Conclusão, antes de saber a opinião de um sujeito sobre o filme, é preciso saber o contexto actual de vida desse mesmo sujeito.

A vida existe para o prazer. O prazer é o sentido da vida. É a sensação de prazer que dá sentido ao dia-após-dia. O prazer de uma vista sobre o Tejo, o prazer de uma gargalhada do Guilherme, o prazer de um acorde harmonioso, uma melodia inspiradora, de uma pintura luminosa, de uma frase ritmada, de um filme... que me faça sentir sensações prazenteiras, intensas ou subtis. Sem esquecer que o Sol só ilumina porque há a escuridão. Daí que tenha alguma dificuldade em ver um filme de terror e suspense, um 'thriller' emocionante, um drama de "caixão-à-cova" ou um policial de perseguições e assasinos (com raras excepções, por exemplo, Sete Pecados Mortais).

E este Moretti deu-me alguns momentos de prazer e o resto de seca. Conteúdo à parte, a forma dele se exprimir também não me excitou. Apenas quando se punha a dançar desajeitadamente ou com as dissertações para adormecer o filho (o puto deve é ter dificuldade em manter-se acordado quando o pai está por perto).

Outra fraqueza do filme. Todas as representações de todos os actores eram mortiças, sem energia, como que para não abafarem o solista. Talvez se me tivessem avisado que era um documentário sobre o bloqueio de artísta, tivesse gostado mais.

O Woody Allen é uma boa comparação. Mas para perceber o que falta em Moretti. Um tem um ar castiço. O outro não e esconde-se atrás da barba. Um tem uma forma de se exprimir engraçada. O outro nem pouco. Um elabora enredos reveladores e mordazes. O outro não elabora. E mesmo assim, o primeiro apenas ganhou verdadeiro interesse após atinjir a maturidade, ou seja, nas suas mais recentes obras, precisamente aquelas em que começa a passar o centro de atenção dele mesmo para o enredo e a interacção entre personagens.

'Abril' não tem má estética. Também não a tem muito boa. A estética é importante. Para seduzir uma mulher, terei maiores probabilidades de sucesso de for bonito do que se cheirar mal. Não quer dizer que não consiga, se cheirar mal, mas nesse caso o conteúdo terá que ser muito bom. Se escrever um romance sem pretensões estéticas, apenas será lido pelos amigos mais chegados e se for bem curtinho. Se fosses enviado para uma ilha deserta o que levavas, a forma ou o conteúdo?