domingo, abril 25

disponível para amar
(in the mood for love)

A fasquia estava alta. Muito alta. Sentia-se nas palavras elogiosas uma admiração contida, abstracta, tão difícil de concretizar quanto o objecto em si. Beleza inclassificável. Deleite subtil. Arte, fundo, ser, fluir. Não era fácil conter a expectativa. Não foi fácil esperar a passagem do tempo.

Porque se nega o amor?
Quando está ali, na porta do lado, disponível.

Por medo de o querer, que ele não se deixa levar,
aparece quando quer, sem convite.
Como o vento.
Para o amor é preciso tempo.
Mente, espaço, tecto.

A história dos amores mortos pouco importa,
um amor negado é que (se) conta.
Amor para ser sobre o amor que foi.
O amor vale enquanto poder ser abalado, sem se abalar,
posto em causa sem se beliscar.

O amor é efémero, coisa de dias.
O amor é único, dele se bebe um trago.
Como a alma, que existe para todos.
Por isso somos irmãos, de nós, dos bichos, das flores,
de pais diferentes, da mesma alma.
O amor é finito,
repartido por quem o quer, sem-querer, uma fatia, meu amor.
Quando negado, não se perde, encontra-se
noutro lugar, transferência aquosa.

Ele sai de súbito.
Como chega, parte para outro pedaço de alma,
sem se demorar pois são muitos os amantes desta terra
e ele é só um e não se deixa enganar,
escolhe a porta que fica aberta, sim, não se deixa fechar.
O amor não se nega.
Que negá-lo é preciso para o ter.

O amor fica num corredor de cortinas vermelhas,
que dá para uma escada onde sempre cai uma chuva morna,
estreita que quem por lá passa sempre se molha, lentamente.
Fica guardado lá em baixo num termos, sempre quente, o amor.
O vento amacia as cortinas, dá-lhes cor, forma e volume, arejando a alma.
Que o amor é a ventoinha da alma.