Sem fintas nem tintas. Vale bem a pena ler La Carta Esférica. Chama-se assim, no original, O Cemitério dos Barcos Sem Nome, de Arturo Pérez-Reverte.
Tem um romance de nome conhecido, O Clube Dumas, pois foi passado a filme. Referem-se às estatísticas para afirmá-lo como o escritor espanhol contemporâneo que mais vende. Isso não quer dizer nada, diriam. Isso não quer dizer tudo, mas diz algumas coisas, diria. Diz que suas histórias são evocativas. Diz que sua escritas são realistas. Diz que suas aventuras têm conteúdo. Não é um escritor, no sentido poético da palavra, é um aventureiro, esta sim, no sentido mais poético da palavra. Diz que, não sendo um brilhante homem das palavras (ou talvez seja a tradução das edições asa que não me excite), é um narrador estudioso e perfeccionista, eficaz criador de personagens, cenários, emoções e expectativas, abrindo portas para aventuras que poderiam ter acontecido a qualquer um de nós. Noutras vidas, outros mares, outros tempos. “La vida del escritor consiste en echar cosas a la mochila: cosas que uno ve, personajes que uno conoce... Luego sacas todo eso de la mochila y lo utilizas.” Quase aposto que este também vai dar em filme.
Foram três anos de trabalho, sendo que a primeira metade foi passada a estudar, a documentar-se...
“um homem calado intimida mais que um falador, porque é difícil adivinhar o que lhe passa pela cabeça.”
“marinheiro sem nada para fazer, procura barco ou procura mulher”
“Brutus perguntava a Popeye se era um homem ou um rato, e este respondia: Sou marinheiro.”
“Uma pessoa sabe que há rochas pela frente, e isso é tudo. Navega, olha para o mar, sente a brisa na cara e o salitre nos lábios, mas não se deixa enganar. Sabe.”
“Não há mulheres más, tal como não há barcos maus... São os homens a bordo quem os torna de uma maneira ou outra.”
“Quero contar-lhe as sardas, Piloto. Já reparaste...? Tem milhares, e quero contá-las todas, uma por uma, percorrendo-a com o dedo como se fosse uma carta náutica. Quero traçar rumos de cabo a rabo, ancorar nas enseadas, fazer navegação costeira na sua pele... Compreendes? — Compreendo. Queres fodê-la.”
“o fruto de uma noite inteira de risco e trabalho, labutando num mar infame, derretia-se nalgumas horas de música, copos, ancas mercenárias e complacentes, nos bares de má fama do Molinete.”
“Leste sempre demasiados livros... Isso não podia trazer nada de bom.”
“os homens deveriam terminar sempre dignamente, no mar, em vez de se verem desmantelados em terra.”
“Fugi, pensou, para um lugar que já não existia, de um lugar que já não existe.”
“a mulher e o vento querem muito tento.”
“O que é um bom capitão? — Alguém que sabe o que faz. Que nunca perde a cabeça. Que sobe até à ponte durante o nosso quarto de serviço e vê um barco obstruindo-nos por um bordo e, em vez de dizer mete tudo a estibordo que vamos abalroar, cala-se, olha para nós e espera que façamos a manobra correcta.”
Obrigado Arturo, por me contares doutras vidas; Mereces a vida que tens.
Obrigado Luís Neves, pela dica.
ps: é verdade que em Espanha as pessoas comemoram o dia do seu santo, recebendo presentes ?