"Aqui me proponho a escrever. Sobre quê? Sobre nada, sobre tudo, sobre a vida, sobre a morte. Suponho que não seja fácil falar sobre nada com ritmo, sobre tudo sem baralhações, sobre a vida com leveza, sobre a morte sem a ter vivido, mas só depois de tentar poderei ou não discordar. Atrás de uma palavra está sempre outra, não reprimir, não vergonhar o que é da alma, feio ou bonito, vencer o medo, deixar correr um trânsito de palavras coloridas sem padrão, sem condizer, sem condição, apenas dizer o que for que se diga. Como jogar um jogo de um jogador só, onde os dados são feitos de palavras, as cartas de papel, um lenço de ideias na cabeça, elas estão sempre lá e não é preciso bater à porta, basta entrar, faze-las correr, saltar, brincar, dar para receber e se faltar alguma é perguntar, diz-me ai um tema, sem tema.
Porque afinal, o que se quer da vida? Quer-se dor, quer-se uma flor, quer-se provar o sabor do prazer, sentir o cheiro a terra molhada, a água a escorrer pela pele, o Sol a enganar a vista, a conquista, a derrota, encontrar a caixinha das emoções, fugir das opções, vaguear por aí sozinho sem perder rumo antes de o encontrar, beber muito sumo de manga, ter o sorriso estampado na cara, fazer batota sempre que possível, comer rabanadas, dar muitas prendas, receber algumas, ir a uma ilha deserta, dar uma queca, apanhar um escaldão, esquecer a morada e escrever sobre nada."
alexandre 1998