"Aquele que me habita, e escreve, vive algures numa espécie de treva. Quase nada sabe da sua própria escrita. Menos ainda falar dela.
Sabe, apenas, que por instantes uma incandescência terrível cresce dentro de si, ergue-se nomeia as coisas e o mundo, apaga sombras, revela os ossos muito antigos das palavras... e de resto, mais nada.
É no escuro das casas que se debruça para o papel e escreve, como se fosse o último homem a fazê-lo."
al berto
Que Tudo se Apague
in O Anjo Mudo
"A escrita exige mais escrita. Escrever, o acto de escrever, exige continuidade.
Talvez seja essa a razão de viajar. A verdade é que viajo para escrever. (...) Caminho às cegas, obsessivamente, de palavra em palavra - e sei que as palavras não valem nada. Estão ocas." (p.22)
"Queria ser escritor, e não sabia o que era preciso fazer para o ser. Tinha vinte anos e sentia-me abandonado..
No fundo, nessa longínqua noite de setenta, a bordo do pequeno navio da carreira Covitavecchia-Cagliari, descobri que o abandono que sentia era o início misterioso de uma paixão que jamais me largou: escrever. E hoje, por vezes, ainda penso: talvez não tivesse sido mau ter permanecido na ignorância dessa paixão." (p.17)
"Sempre achei que não se deve revisitar os lugares da paixão." (p.47)