segunda-feira, setembro 20

testemunho sobre a china
(prelúdio à viagem do bruno)

NO CORAÇÂO DO IMPÉRIO

«Um ano depois, voltei à China.
Apenas, desta vez, para nove dias na capital deste império imenso. No dia em que cheguei o céu era azul, depois foi acinzentando, como cinzenta ficou também a minha vida: depois de jantar, regateei o preço de um pedicab na Wangfuxing (leia-se ván fu tjin), a mais conhecida rua desta cidade, e tirei da carteira a nota combinada, que guardei no bolso das calças. Sentado atrás enquanto o condutor pedalava à frente, fiz, na companhia do André, um trajecto curto e agradável até ao hotel. Aqui, para pegar a chave electrónica do quarto, procurei de novo a carteira ... não a tinha. Cartões de crédito, algum dinheiro, passaporte, bilhete de identidade, cartões disto e daquilo, tudo se fora. Assim, sem perceber como, num clique de magia. Só que o mágico depois devolve-nos o objecto.
Gastei três dias em táxis sem fim para burocracias intermináveis, e outros tantos dias depois tinha finalmente o indispensável visto de saída. Então, deram-me um prazo de 24 horas para saír do país. Gente “simpática”. Julgo que não é por mal, mas talvez apenas porque assim é o sistema.
(…)
E a propósito deste episódio difícil, recordo divertido, o chingalishe do telefonista da embaixada da Portugal, numa das vezes que pedi para falar com a inexcedível Maria Sousa: “The line is in the phone. She`s busy.” O chinês traduzira à letra a sua ideia, saindo-se com este “a linha está no telefone”, mas que me elucidou perfeitamente que Maria estava ao telefone. Esta enorme diferença na forma de estruturar o pensamento traduz-se em toda uma forma de estar na vida, completamente diferente da ocidental.
(…)
E Pequim, digo, Beijing ?
Quem for apenas ali, à capital, não diga que esteve na China, diga sim que esteve em Pequim, ou arrisca-se a fazer toda uma série de juízos errados sobre aquele país imenso. Uma das grandes diferenças é o custo de vida, que em Beijing é elevado.
É uma cidade enorme, sem fim, congestionada de taxis e bicicletas (que proporcionam um espectáculo sem par quando chegam aos cruzamentos, formando uma serpente que se esgueira entre os carros), asseada, onde as pessoas me pareceram ordeiras e gentis (carteiristas, qual a grande cidade que os não tem?), com a excepção de as passagens para peões serem o equivalente aos sinais amarelos em Portugal (exactamente: ordem para acelerar!). O trânsito é confuso, mas eles entendem-se. O número de novas construções é impressionante, os bairros antigos são simplesmente arrasados e substituídos por prédios e centros comerciais, gigantescos e modernos. Fortemente ocidentalizada, com McDonald`s por todo o lado, é a dificuldade em comunicar que me faz sentir num outro mundo – ninguém fala senão chinês. Antes de apanhar um taxi (há-os de três preços diferentes, é preciso estar atento ao escrito, e não aceitam gorjeta) é indispensável obter o endereço do destino escrito em caracteres chineses, pois tampouco o nosso alfabeto ali é entendido.
(…)
Embora Mao tenha caído em menos graça, constatei que a sua memória é respeitada. A maior ofensa que lhe terão feito seja quiçá a de terem posto do outro lado da rua, mesmo em frente ao seu mausoléu, um restaurante KFC, esse produto capitalista tipo McDonald em versão de galinha.
(…)
O mercado da seda é um espanto: uma rua estreita pejada de gente ao meio e barraquinhas nos lados, ali mesmo à porta da embaixada americana. Todas as marcas da roupa dos ricos ao preço dos pobres, se soubermos regatear e até mesmo que não saibamos: custos inacreditavelmente baixos, a contrastar com os preços absurdamente elevados nos sítios de turistas.
(…)
Despeço-me da China com sentimentos controversos.
Almoço numa Pizza Hut, ao som da voz de Celine Dion, entro num táxi para o aeroporto e a telefonia transmite uma versão de Besa-me mucho em ritmo Carlos Gardel. Na sala de espera, a televisão transmite imagens dos jogos olímpicos de Sidney, enquanto cartazes em volta anunciam as olimpíadas de 2008 em Beijing. E pergunto-me se nessa altura ainda restará algo que distinga esta cidade de qualquer outra desse mundo afora, num planeta cada vez mais igual, ao gosto e sabor do poderio económico das multinacionais.
Fica-se-me o inesquecível sentimento de uma paz muito suave e tranquila nos mosteiros da montanha sagrada e o encanto das terras do sul, com destaque para Lijiang, tão próximo de Shangri-lá quanto consegui alcançar.»

por Jovelino MatosAlmeida
(memórias de há 4 anos atrás)