
Viva o Brunildo!
"Apertem o cinto e endireitem as costas das cadeiras que vamos iniciar uma descida para a nossa órbita, que demorará uns breves dez dias. O tempo em Vénus está óptimo, com uns amenos 450 graus [Celsius] à superfície." Bruno Sousa, 11-4-2006
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1253594
http://dn.sapo.pt/2006/04/11/sociedade/sonda_europeia_chega_hoje_a_venus.html
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1253612
Manobra crítica marcada para hoje
Venus Express está a chegar ao planeta mais quente do sistema solar
11.04.2006 - 08h04
Teresa Firmino, PÚBLICO
Hoje, uma sonda da Europa vai deixar-se apanhar pela gravidade de Vénus, para ficar em órbita do planeta mais quente do sistema solar. A Venus Express está a chegar ao fim de uma viagem de cinco meses e 400 milhões de quilómetros, desde a Terra, e a iniciar uma aventura científica de dois anos.
Bruno Sousa, um engenheiro aeroespacial português, de 31 anos, vai ajudá-la a voar. Literalmente. Faz parte da equipa de controlo da Venus Express, liderada por um italiano, com três alemães, dois ingleses, um francês, um espanhol e um suíço. Por isso, nesse momento, um dos mais críticos da missão, vai estar à frente de uma consola na sala principal de controlo do Centro Europeu de Operações Espaciais (ESOC) da Agência Espacial Europeia, em Darmstadt, na Alemanha, de onde são controladas as sondas da Europa. O momento de provar que funciona está marcado para hoje às 8h10 (hora de Lisboa). A sonda não vai deixar-se apanhar passivamente pelas garras da gravidade de Vénus: o motor principal terá de funcionar cerca de 50 minutos, para obrigá-la a travar, a 400 quilómetros do solo.A Venus Express está a viajar a 29 mil quilómetros por hora em relação a Vénus - ou seja, a oito quilómetros por segundo. "Vamos fazer uma travagem de 1,2 quilómetros por segundo, o suficiente para ficar presa à gravidade de Vénus", antecipa Bruno Sousa. "Se for mais rápida, Vénus não nos captura. Temos de travar o suficiente para nos agarrar", diz o engenheiro aeroespacial, como se estivesse a bordo. "Há o risco de o motor não funcionar ou funcionar menos tempo do que devia. Então a sonda vai estar com demasiada velocidade e não vai cair em órbita do planeta. Continua e vai parar a Mércurio ou ao Sol... Não pensámos nisso."Se for muito devagar, cai até à superfície do planeta. "Neste momento, com a velocidade com que vamos, não há possibilidade de cair. Não há possibilidade de a travar."Os comandos da manobra de travagem já foram enviados para o computador de bordo, na sexta-feira. Um pouco antes desta manobra, parte dos instrumentos vão ser desligados, pelo que a equipa de Bruno Sousa deixará de receber informação sobre o estado da Venus Express. "Só vamos ter o sinal de rádio, sem qualquer informação."Depois, às 8h38, a sonda vai ficar escondida atrás de Vénus durante dez minutos, e ninguém receberá o seu sinal de rádio (que demora sete minutos a chegar à Terra). Isto significará que a manobra está a correr às mil maravilhas. "É a única altura em que perder o sinal é um bom sinal", brinca Bruno Sousa, que foi aluno do primeiro curso de Engenharia Aeroespacial em Portugal, entre 1992 e 1997, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Um pouco antes e depois da ocultação da sonda, a equipa terá outro motivo para suster a respiração - a Venus Express vai ficar na sombra do planeta, sem receber a luz do Sol, durante 17 minutos. "Isso implica que as baterias vão ter de funcionar e substituir os painéis solares." Com o fim da manobra, o trabalho da equipa está longe do fim. É preciso recuperar os sistemas que foram desligados e determinar com rigor a órbita, para nos dez dias seguintes fazer duas correcções com o motor principal, até que a Venus Express dê uma única volta ao planeta num dia, entre os 250 quilómetros acima da superfície e os 66 mil. Pronta para trabalhar no início de MaioNo início de Maio, com sete instrumentos a bordo, deverá estar pronta para recolher dados sobre a intrigante atmosfera venusiana, responsável por um efeito de estufa que se traduz em quase o dobro da temperatura de um forno doméstico. Observará também o solo, tapado por nuvens tão opacas que, durante muito tempo, não deixavam ver quase nada lá em baixo. Passará dois anos nisto, o mesmo tempo que Vasco da Gama levou a ir e voltar da Índia. (A primeira das suas naus, comandada por Nicolau Coelho, a Bérrio, regressou a 10 de Julho de 1499.) "De repente, apercebi-me de que estamos a chegar a Vénus, e é emocionante." Bruno Sousa, que aos sete anos desenhava naves da série televisiva Galactica e aos 17 construía foguetes de cartão, madeira de balsa e cargas de pólvora, não disfarça o entusiasmo com que encara o seu trabalho. Inventa um relato da chegada da sonda a Vénus, como se todos estivéssemos numa nave expresso da Agência Espacial Europeia. "Apertem o cinto e endireitem as costas das cadeiras que vamos iniciar uma descida para a nossa órbita, que demorará uns breves dez dias. O tempo em Vénus está óptimo, com uns amenos 450 graus [Celsius] à superfície."