quinta-feira, novembro 30

pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte
nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado
de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo:
fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz?
E amanhã há bola antes de haver cinema
madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo de chamar o gerente
e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


Mário Cesariny
Nobilíssima Visão (1945-1946), in burlescas, teóricas e sentimentais (1972)