quinta-feira, março 25

a mais alta solidão

Concordo. Mas ainda assim li-o com curiosidade, como um documento, pois para os aficionados da montanha, bem como para os curiosos da mente humana, é um livro que mostra um pouco mais do que é o mundo extremo de que fazemos parte, mundo feito de pessoas como nós, umas más, outras menos.

Eu diria, leiam-no, mas corrido e emprestado. Para ver como mesmo nos lugares mais inóspitos, onde o oxigénio escasseia, basta haver Homem, para haver lixo. Lixo-lixo, lixo-mental e lixo-homem. Lixo que o homem deixa, lixo que o homem tem que deixar, incluindo o homem em si mesmo. Centenas de cadáveres impecavelmente conservados jazem pela montanha, corpos que conseguiram chegar ao lugar mais alto do planeta, mas não conseguiram conservar a pouca lucidez necessária para regressar à vida, ao acampamento-base. E assim quem, por arte e sabedoria, conseguiu chegar ao caminho que o leva à meta estabelecida, um caminho solitário, de ventos e tempestades, sem horizonte nem trégua, indizível, não só tem de superar as forças invencíveis da natureza como tem que ser maior que a imagem real da morte, ela mesma em carne e osso congelados, repetida vezes sem conta, cada vez mais vezes quanto mais perto o destino, tentando da forma mais concreta arrebatar as últimas forças que fazem mover um pé para a frente do outro, na loucura que é ainda estar vivo. É que só há uma viajem sem regresso, a da morte (meu pai bem me aconselha, quando parto em viagem, sempre que puseres gasolina, guarda quantia igual em lugar seguro, para o regresso). Todas as outras tem que acautelar o retorno, se pretendem chegar ao fim. Que o fim é sempre o ponto de partida.

Para ver como é frágil a condição humana, e como é apenas frágil e nem chega a condição quando nos extremos, o da vida entre a morte, entre a glória própria ou a salvação alheia, entre a verdade e a mentira a que todos os extremos dão origem.