Sobrevoo os Andes, manhã cedo. São belos, magníficos, imponentes.
A dez mil e quinhentos metros de altitude, é o meu primeiro contacto com a cordilheira que sempre povoou o meu imaginário de expectativas. Não desiludem, pelo contrário. O sol baixo leva sombras às montanhas, que lhes acentuam os volumes: montanhas de cumes nevados que se estendem de N a S, até onde a vista alcança (é Primavera, aqui no Sul do Hemisfério).
jovelino 2004
07Dez
Aos 8.000 pés (2.400 m) paramos a subida, esperando que o vento mude e leve para outras bandas o tóxico fumo de enxofre que continuamente expele. O cenário abaixo é deslumbrante, a neve muito branca sob um céu azul e límpido, e um extenso tapete de nuvens fofas, ocultando por completo o planeta terra.
Eram 7h30 quando começamos a equipar-nos: botas, fato impermeável, luvas e uma espécie de machado para cravar na neve. Seguimos até aos 6 mil pés de carro e telecadeira (1.800 m), e aqui começamos a caminhar, uma fila indiana encabeçada pelo guia, que depois se vai repartindo em pequenos grupos segundo as capacidades físicas dos trepadores.
Subimos aos ziguezagues para iludir o acentuado declive do terreno. É uma caminhada difícil na primeira hora, com a neve mole em que os pés se enterram, ficando mais fácil quando depois avançamos sobre gelo coberto por uma fina camada de neve recente, para se tornar novamente penosa nos últimos 200 metros de desnível, devido à forte inclinação da montanha. Levamos na mochila crampones que afinal não precisamos de usar (uma espécie de solas com um denteado em ferro, para cravar no gelo)
A cem metros do cume há um ar venenoso que me faz tossir e a ordem é para descer imediatamente. Mas o vento pára, o fumo eleva-se na vertical, e alcançamos a cratera do activo vulcao Pucón, a 2.847 m de altitude. Espectacular recompensa pelas 4 ou 5 horas de esforço intenso: a vista é fabulosa e o sentimento é de vitória.
Sobressai a SW, acima do manto de nuvens, o cume gelado do vulcão Lanín, metade chileno metade argentino. É a esplendorosa cordilheira dos Andes, que não cessa de maravilhar. A Sul, invisível sob o tapete de algodão branco, estende-se a Patagónia.
Os diversos grupos vão chegando e à 1h20 iniciamos o regresso, boa parte do qual é feito deslizando sobre o rabo, a ponta aguçada da machadinha cuidadosamente presa entre o polegar e os outros dedos, a outra mão no cabo, prontos para em caso de queda ou descida em velocidade descontrolada, voltearmos o tronco e cravarmos a machada no gelo. Deslizam-se umas dezenas de metros, caminha-se para a esquerda, outro troço de rabo no chão gelado e assim sucessivamente. Logo na primeira descida, perco o controlo e o machado, um guia generoso estende-me outro quando o ultrapasso a toda a brida e agarro-o sofregamente. Vou ganhando experiência e chego lá abaixo, completamente molhado, mas em grande estilo.
08Dez
Saímos às 7h45 e chegamos à fronteira com a Argentina pelas 9. O camião trepida que se farta nas estrada curvilínea, e o estômago queixa-se. Uma paragem longa (duas, aliás: uma à saída do Chile e outra à entrada da Argentina) que aproveito para escrever estas notas.
10Dez
Estamos acampados nas margens do lago Nahuel Huapi, a 700 m de altitude e 14 km de São Carlos de Bariloche, cidade sem graça mas que tem por especialidade os chocolates, intitulando-se a Suiça da Argentina. Há uma avaria na suspensão do camião, o que implica um dia de paragem imprevista, e assim se lava roupa, actualizam-se apontamentos de viagem e arrumam-se fotografias no portátil.
No Inverno é uma estância grande de ski e no verão de actividades ao ar livre. Há diversos lagos de águas muito azuis, rodeados pelos picos nevados da cordilheira dos Andes, campos de flores amarelas, lupinus de cachos azuis e violeta, arvores de flores vermelhas e autenticas chuvas de sementes que o vento leva em profusão procurando uma oportunidade de propagar a vida.
www.barilochepatagonia.info
Ontem foi dia de cabalgata (130 pesos; 2,9 pesos argentinos por USDolar): a parte chata foram 2 horas enfiados numa van (mais outras tantas de regresso…), mas por sítios muito bonitos. Havia 14 cavalos há nossa espera e demos um óptimo passeio de 3 horas, almoçando numa cabana isolada: quadradinhos de queijo, rodelas de enchidos excelentes, sumos naturais, um borrego assado inteiro e vinho tinto… sem sabor a álcool (perigoso!).
por jovelino