quinta-feira, dezembro 23

jovelino na patagónia III

11 e 12Dez
Lá fora há sol mas o vento assobia, intenso e gelado. Decididamente o Mundo acabou lá muito para trás. Estende-se até perder de vista, uma planície imensa de pedregulhos e ervas esparsas: é a pampa, a terra dos gaúchos, rudes e solitários, figuras enigmáticas em vias de extinção. O vento sopra fortíssimo ou ainda mais forte, sempre gelado; é então isto a Patagónia? interrogo-me estupefacto, ao mesmo tempo que sinto uma inquietação interior, uma estranheza, uma vontade do tempo que não tenho, por viajar em grupo, para parar e sentir aquele vazio. Há aqui mistérios por penetrar, interrogações por decifrar; deixar entrar na alma esta crueza, este desconforto, esta violência, este clima rude, inclemente. E há no entanto uma aura de mistério que fascina, um apelo a um não-sei-quê de muito fundo. “Talvez volte um dia. Com tempo”. (Os homens do Ocidente passam a vida em busca do tempo).

De Bariloche a El Chalten, com paragem em Perito Moreno.

Há um intervalo para jantar (pasta, pois claro) e dormir 6 horas, a temperar as 25h dentro do camião (até os almoços se preparam e engolem em andamento). Da verdura dos dias anteriores passamos ao cenário de planície com pedras e vegetação esparsa e rasteira, em pistas de terra, centenas de quilómetros sem fim. Não se vê uma alma, não nos cruzamos com um único carro! Mas vemos cavalos selvagens, guanacos (aparentemente iguais aos lamas), coelhos, quase-avestruzes, flamingos, algumas vacas e muitas ovelhas fofas com filhotes. A bordo tenta-se dormir e ler, o que é difícil de tanto trepidar o camiao, e inventam-se jogos e passatempos diversos, que se esgotam.

jovelino 2004

13 Dez
Foram 5 horas a trepar, premiadas com uma das mais espectaculares vistas que já contemplei, o lago De Los Tres, na base do Monte Fitz Roy (3.400m), o cume escondido nas nuvens que, velozes, se sucedem, brancas, cinzentas, rasgadas por clarões de céu azul. O vento muito gelado, omnipresente neste planeta distante, é uma memória profunda a rasgar o corpo, a alma, as roupas.

Dez horas depois de ter partido (o problema das grandes caminhadas é ter que se fazer o caminho de regresso), de pés em ferida e espírito feliz, regresso ao pueblo de El Chaltén, fundado em 1985 para marcar presença face às pretensões chilenas sobre a posse deste território. Recentemente, começou a desenvolver-se um turismo à base de backpackers em busca de treckings e vida barata, sem rumo fixo. As ruas em terra batida, semeada por pedras de marcha incómoda, são ladeadas por construções inacabadas, restaurantes óptimos e baratos, agências de aventura, recuerdos e, próxima da bandeira argentina, uma casa de telhado negro e uma tabuleta com as letras Internet. É também o único local onde receber pesos argentinos por dólares americanos (cujo valor por sinal contínua a descer sem travão), e, claro, tá sempre apinhado. Sao horas de voltar ao hotel, o corpo inclinado a oeste a equilibrar o vento para leste. Amanha é dia de tornar ao piso do sendero.

15Dez
Houve-se o estrondo, um ribombar poderoso, e procura-se com o olhar. É um pedaço da frente do glaciar que se desprende! Com a crista a cinquenta metros de altura sobre o lago, os blocos que se soltam levantam uma onda poderosa, e o barco dos turistas queda-se a uns respeitosos trezentos metros de distância.

A frente do glaciar Perito Moreno estende-se por algumas centenas de metros de largura sobre o lago de águas cor esmeralda, azul muito claro. Algures lá para trás tem quatro quilómetros na sua largura máxima, e mantém-se estável no comprimento, avançando dois metros por dia, poderoso e espectacular. Vê-lo, ocupa um dia inteiro do nosso viajar. Começa pela manhã com um percurso de oitenta quilómetros, de Calafate ao Parque Nacional dos Glaciares, animado por apreciável quantidade de aves e lebres; houve mesmo um passarão que passou veloz com uma lebre nas garras. No regresso a El Calafate, cidade turística que vive das visitas ao fabuloso glaciar, esperam-nos as lojas de chocolate, um vício argentino.

Curiosidades
Alguém trouxe as lebres para a Argentina, uns casais fugiram, e transformaram-se, dizem, uma praga. Aqui não as comem, mas contam-me que, como ocupação nas noites de Inverno, sem turistas, qualquer pessoa facilmente apanha umas largas dúzias na estrada , cuja carne é exportada para a França e a Alemanha.

Ovelhas; em media um hectare de pasto por ovelha; as herdades da Patagónia são ENORMES; parei numa com dois mil hectares, era muy pequeña; o habitual é terem dezenas de milhar de hectares; a tiragem da lã é em Janeiro; foi o ouro da Patagónia em tempos idos, depois caiu para um valor miserável, e agora a carne é a parte rentável; os borregos, separados aquando da tosquia, vão para o matadouro e carne é exportada. As ovelhas sao redondinhas de tanta lã, apetece pegar-lhes como bonecos de peluche em ponto grande.

Li que os gauchos comem borrego no churrasco: ao pequeno almoço, almoço e jantar. Pois eu adoro, e ainda me não cansei da sua carne, intervalando com alguns baratíssimos bifes de vaca com três a quatro dedos de altura (sem exagero) e tão duros como... peixe (também sem exagero).

jovelino 2004

22Dez
Entao é isto, Punta Arenas ?Um sítio sem punta de graça, cum caraças.A viagem fica aqui um dia inteiro (2 noites), penso que por causa da existencia de uma zona franca (compras sem impostos ..), mas nao se justifica minimente.
Enganei-me sobre o dia de Natal, afinal será (dias 24 e 25, completos) em Ushuaia, no paralelo 52, a cidade mais austral do Planeta (Argentina, no extremo sul da Terra do Fogo, junto ao canal Beagle); a sul, apenas umas ilhotas e a .. Antartida. Seguir-se-ao os 5 dias mais chatos, pois dos 5 sao 4 de viagem sem parar! Do extremo sul a Buenos Aires. A paragem será de 2 noites na peninsula de Valdez, local de especial encanto quanto à fauna "gelada". Ainda pensei em apanhar um aviao para Buenos Aires mas, que se dane, fico a conhecer a paisagem de baixo a cima! O camião trepida demais, nao dá pra ler, escrever ou trabalhar nas fotos, sob pena de grosso enjôo. Em Buenos Aires, logo na noite da chegada vai ser noite de TANGO, claro! E o dia seguinte de regresso e passagem do ano original, a bordo.

por jovelino