sábado, fevereiro 14

(I)Reflexões ou maluquices da águeda, como queiram chamar-lhe

A Sensação de não a ter

Tenho a sensação de não ter sensação alguma. É estranho. Estiro-me confortavelmente no sofá na expectativa de sentir aflorar alguma sensação que não vem. Tento relaxar o corpo e descontrair a mente para poder gozar a sensação que deve estar a eclodir a qualquer instante... mas ela não vem. Que chatice. Não é normal ter de forçar algo que deveria aparecer espontaneamente. Penso alguns instantes, chego à conclusão que ela só não acontece porque estou a forçá-la a acontecer. Esta não é a melhor forma de ter uma sensação. Bolas para isto!
Já sei, se eu não a sinto é porque ela foi para longe. Imagino-a a voar pelo espaço e ir aterrar em alguém que estará neste momento algures a gozar a sensação que eu tanto queria para mim. Consigo ver a cara de quem a possui neste momento. Oh! É uma boa sensação. Sei-o porque descortino um sorriso dengoso nos lábios de quem a tem, consigo intuir o seu suspiro de satisfação. Fui roubada. A sensação era para mim. Agora sou obrigada a “testemunhá-la” em outra pessoa que não eu. É injusto! Eu é que me esforcei para tê-la e, no entanto, aquilo que sinto é o vazio deixado pelo volume de uma sensação que não consigo sentir.
Afundo-me ainda mais no sofá, diminuída dessa sensação que fugiu de mim só para que eu tenha a sensação de não a ter.
Ganhei!!! Afinal este vazio é também uma sensação.

Águeda de Burgo, 2000