sábado, fevereiro 14

a propósito de lareira

"Agora, no Inverno, no campo, as noites são ásperas e hostis. Toda a Natureza está impassível e entorpecida, esperando a fermentação violenta das seivas.
... Então o homem sente a sua pequenina e inútil alma afundar-se no tédio, silenciosamente, como um navio roto numa calmaria, e vai por instito dar-se à intimidade consoladora da lareira, das brasas e do fogo. E enquanto a força vital se dissolve numa sonolência fluida, ele sente aos seus pés uma pequena voz, alegre, inquieta, clara, que lhe fala como num êxtase profano: «Sou eu», diz a voz, «eu, o teu velho camarada, o bom lume. Sou eu, o teu velho Deus misterioso. Eu que te quero bem, e que te dei o que há em ti de grande e justo - a família e o trabalho. A minha história é triste, luminosa e terrível, imunda e meiga. Eu fui o teu companheiro das noites da Índia, o consolador e o purificador; eu fui o Moloch das regiões da velha África, ensanguentado e trágico; e sou agora o escravo a quem tu mandas mover as máquinas.
Sempre escondido e silencioso, ocupando a um canto o mais pequeno espaço da casa, eu venho todo jovial e radiosos quando tu me chamas, e fico, nas tuas horas negras de dor e de miséria, calado ao pé de ti, lambendo-te os pés como um cão»."

in Prosas Bárbaras de Eça de Queiroz, O Lume